Parte de mim teme o que parte de mim!

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Sonhos, desejos, gostos, sabores, memórias, lugares, estado de espírito, como eu adoraria que tudo fosse registrado no filtro fotográfico do tempo onde sempre que eu quisesse teria livre acesso apenas com o pensamento. Mas nem tudo é assim, simples, fácil, a disposição de um querer.

Um dia li uma frase que reverte exatamente naquilo que me prezo a moldar minhas experiências. Ela dizia mais ou menos assim: 

“Ninguém entra no mesmo rio uma segunda vez, pois quando isto acontece já não se é mais o mesmo. Assim como as águas que já serão outras. ” (Heráclito)

E esse pensamento de Heráclito me acompanha desde o segundo que conheci suas sábias palavras, e se formos parar para analisar, quantas coisas que já possuímos, gostamos ou vivemos que hoje já não faz mais parte de nossa rotina meramente organizada? A pessoa de seu primeiro beijo se tornou o seu eterno amor? Você morreu depois daquele pé na bunda? 

Ainda reclama das espinhas que brotam em seu rosto? Senta no mesmo banco todo final de tarde para contemplar o pôr do sol? Gosta das mesmas músicas? Tem os mesmos amigos? Luta pelos mesmo sonhos? Ainda mora na mesma casa? Somos seres humanos e nossa tendência é ser apegados a tudo que nos mantem vivos. Porém a verdadeira essência se encontra no realmente viver, e não ser apenas mais uma estatística de ponta solta por aí. 

Ao mesmo tempo que se jogar no novo parece uma delícia, sempre que me sento no chão gelado da minha varanda e gasto alguns minutos vendo velhos álbuns de fotografia, ainda sinto o mesmo frio na espinha e o sorriso bobo de canto como se ainda fosse a primeira vez que aquele momento aconteceu. 

A nostalgia é um soco na cara sem aviso prévio, ela nos taca no colo do passado e nos preenche com um desejo insano de viver tudo outra vez, metade de mim quer fechar essa parte e simplesmente seguir em frente. “Foram momentos, deixe-os para lá”, brada a minha consciência, e a outra metade de mim me puxa para a delícia de um momento que já me fez vivenciar os mais indescritíveis sentimentos. 

Se manter fiel a uma lembrança só irá tirar de nós novas histórias. É tipo fotografia, registramos o momento, sentimos toda vez que vemos, mas as pessoas ali já não são mais as mesmas. Então a realidade ajusta meus ponteiros e me lembra que sempre irei evoluir, e que bom já não ter mais os mesmos gostos ou referências, significa que a cada batida de meu coração mais veloz ou menos desacelerada eu estou finalmente vivenciando aquele momento, que um dia também será parte de um passado o qual irá sempre e para sempre fazer parte de minha essência. Então que eu seja essa constante metamorfose ambulante a colecionar histórias por onde eu passar e que vez ou outra também possa ser a saudade onde alguém irá desejar habitar.



RÊ VIEIRA
Sul-mato-grossense, escorpiana, bacharel em Direito, mas viciada nas palavras, brinca de ser poeta e é rockeira de coração. Ela é uma mistura de intensidade com a voracidade de viver, é apaixonada por livros, pessoas legais, música e é louca por vinhos.

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