30 seconds.

16:00


O tempo ti-taqueia sem parar, piscou e abriu os olhos ele já acabou, poderia ser uma história, uma música, um grito, um pensamento, mas são os segundos que me jogo sem medo de me estabanar no chão. 

Ele é meu, não é de mais ninguém, a rotina me consome, muitas vezes ela me engole, mas eu estou tão acostumada com a adrenalina que nem ligo pra tudo que se passa desapercebido, é uma mensagem que depois eu respondo, é aquele GIF engraçado que na hora eu nem dou tanta risada. São aquelas intermináveis fotos de bom dia no grupo da família. Um e Moji daqui, um “tô ocupada da li” o baile segue, e se passam horas atrás de horas.

Dias, semanas, meses e anos, e tudo que me resta são 30 segundos, eu sou egoísta e me permiti ter o luxo de gozar desse instante para meu único proveito. A nossa mente não desliga, a minha é hiperativa até mesmo quando estou dormindo, sonho com o trabalho e acordo para realiza-lo, troco meu café pelo almoço, e algumas vezes até esqueço que tenho que jantar. Mas dos meus 30 segundos eu prometi nunca mais abrir mão.

Ali, debaixo do chuveiro, com a água que molha meu corpo e leva a tristeza, as alegrias, a canseira da alma e muitas vezes do meu coração, eu me apoio na parede, fecho meus olhos, e me deixo libertar, e conto até 30, a cada número que sobe em minha contagem é uma dose de vida que sinto ser injetada em meu organismo. 

Ali, eu me dou o luxo de ser quem eu quiser, a princesa, a bandida, a pessoa que ama e a pessoa que não quer a casa com uma cerquinha branca, me deixem apenas os cachorros, enfim, durante 30 segundos eu sou minha, apenas minha e de ninguém mais.

Não tem pai, mãe, melhor amiga, namorado ou quem é que seja, os segundos são meus, eu relaxo o meu corpo, eu me permito voar mesmo que meus pés continuem plantados no mesmo lugar. Eu solto o peso dos ombros, e foda-se se o mundo irá desabar, ali não tenho preocupações, não tem dramas, nem saudades, sou eu olhando reflexivamente para o meu “eu” interior.

Não importa de quantas horas será o meu banho, e no que minha cabeça irá pensar enquanto eu estiver ali, se vai me dar vontade de cantar, de sair correndo por que o dia foi um porre e tudo o que eu quero é cama, chocolate quente e Netflix, não importa se eu vou ter a festa mais importante do ano, todos os dias eu me prendo numa bolha de 30 segundos, onde o mundo é meu e eu posso ter e ser quem eu quiser.

Quando eu me recomponho, encaro de novo a realidade, eu saio dali com a força que Davi derrotou Golias, eu me sinto viva, me sinto capaz, e nada, e nem ninguém rouba isso de mim. Não sei como é seu dia, não sei como é sua rotina, não sei qual é a sua rota de fuga, mas acreditem, tirar nem que seja 1 segundo pra você, pode lhe impedir de desmoronar perante todas as outras horas que não irão lhe pertencer. 


RÊ VIEIRA
Sul-mato-grossense, escorpiana, bacharel em Direito, mas viciada nas palavras, brinca de ser poeta e é rockeira de coração. Ela é uma mistura de intensidade com a voracidade de viver, é apaixonada por livros, pessoas legais, música e é louca por vinhos.

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